Chuva engarrafada

Eu bem queria estar chovendo
Assim
Seria Eu 
Sujeito a Chuvas
E Trovoadas

Mas não,
Eu não estava.

Era inverno naquela região
E meu corpo estava rígido
Feito pedra
E nem mesmo o Sol 
Que entrava tímido 
Pela janela
Tivera o poder 
De 

Descongelar-me …

Envolto em cobertas
E em frente a lareira
Eu me aquecia
As vezes sentia
Uma gota de suor
Insistindo em querer sair
Mas logo desistia

O vento cortante
Que soprava lá fora
Era somente 
Para os corajosos
E atrevidos 

Poucos se atreviam!

Eu bem queria estar chovendo
Assim escorreria em sua janela
E quem sabe penetraria 
Nas partes intimas do seu corpo
Mas cá estou a observar 
Os Flocos de neve que caem 

Lá fora

Se vocês soubessem o que é evaporar
Talvez não espantaria com o fato 
De eu querer chover

Meus versos fluem no papel
Mas não molham a sua mão
Como um gelo a degelar-se

Meus versos 
Tal qual meu coração
Estão congelados

Saibam que houve um dia
Em que evaporei e que chovi
E me vi molhando os campos
Que precisavam de chuva

E me vi sendo levado 
Pela correnteza de um rio
Em direção ao delta

Onde me dividi 
E virei mar

Hoje quando me lembro
Sinto brotar uma parte de mim
Que ainda quer chover

Posto que sou chuva engarrafada
Fui mar , já fui cachoeira 
E ao falarem de amor
Digo-lhes:

Muitas Águas
Devem Rolar
.

.

Jair Fraga

Fragmentos I
Todo ser humano que se prende , filho


Terás como destino 

o oficio 

de uma aranha

e como ela 

viverás preso 

Pela eternidade

A uma teia!! 

Jair Fraga

‎(…) Tá tudo bem, tá tudo bem, nenhuma praga pegará em vossos filhos
Nenhuma traça roerás os vossos livros(…)
Jair Fraga
Carta à Ca

Se me nego a querer-te, querida
É por não querer vê-la vencida
Como a vela que agora acendi 
E por ausência de cera apagou-se

É por querer muito mais que o fogo 
E querer ser a brasa que voa 
E incendeia terrenos baldios 

É por querer querer e querer
Sem nenhuma limitação
E estar preso somente ao vento
E suas oscilações

Jair Fraga

Ledo Saber

O vento atravessa o horizonte
Trazendo lagrimas escondidas 
Trazendo gritos de dor 
Lembranças esquecidas

O sol nasceu quadrado hoje
E os sonhos retraídos 
São jogas no vão do destino
De um pobre menino 

E o desespero inda mora 
Nas lembranças de uma vã filosofia
Embora o país inteiro ore 
Querendo justiça 
Na fotografia os dentes
Continuam amarelos

E o sistema mútuo 
De formar conceitos 
Continua exposto 
Pelas prateleiras

E o sistema é tudo
Cego, surdo e mudo
Finge que não vê
Que o menino chora

Finge que não vê
Que sua mãe implora 
Finge que não vê 
Que sua mãe
Finge que não vê que …

De noite injetam doses vedetes
Cultura inútil para marionetes
Educação entre parenteses
Alienados e afins, é ledo saber

De educados a cadeia está cheia
De Eduardos e Marias também
Você também, meu bem, já sabia
Educação é coisa pra titia 

E o mundo assim dá um nó
Troca-se livros por cola 
Escola por pó

O governo é quem sabe
Quem sabe já voou 
E o sabiá ao vento 
Pode ir em busca 
Do seu amor

Jair Fraga V. Neto 

Onde andará felicidade?

Não sei o que fazer
Com tanta tristeza
Andei procurando
Debaixo da mesa
E a felicidade
Não estava lá

Você que me ouve
Lhe dou recompensa
Andei procurando
Na minha dispensa
E a felicidade 
Não estava lá

Será que partiu
Por rio ou por mar
Ganhou oceano
E pro meu piano
Não quer mais voltar?

Será que a viu
Pela rua a passar
Ficou apaixonada
E pra minha guitarra
Não quer mais voltar?

Pensei tê-la visto
Em meu coração
Meus caros amigos
Era mera impressão
Pois a felicidade
Não estava lá

Senhoras e senhores
Bastante atenção
Pois o que eu procuro
Não está no chão
A felicidade
Está em nossas mãos

Será que eu vi
Mas não quis olhar
Pessoas que sofrem de amor
Tem medo de amar 

Jair Fraga V. Neto 

O urubu

O urubu
Não se contenta
Quando o prato é pouco
Deixa o trabalho pra formiga
E isso é muito louco

Mas Quando o dia acaba 
E a vida finda
A morte chega ser deselegante
Pois junto dela vem
o podre cheiro de carniça

E o urubu
Que está voando
Bem de longe avista
E não se importa
Se é preto, branco 
Ou amarelo 

Pois é vermelha
A nobre carne
Que o alimenta!


Jair Fraga V. Neto 

 

CARTA À SOFIA



Cuidado sofia, 
com esta parte 
que lhe escapa

Foge

com este mundo 
que perturba

Turva

a tua imagem 
cerebral

Cuidado , sofia
com está magia 
que tu cria

Vaga!

Com esta loucura 
que a consome

Paga

Fora deste mundo 
que lhe foge

Vague

atrás de um 
lugar melhor

Cuidado 
Sofia, 

a solidão 
é pertinente

se tua mente
tão somente

está em paz 
com o teu mundo

fato!

Jair Fraga V. Neto

A música vive me emprestando saudade.
Fabrício Carpinejar (via partidoemfranja)
A fada e a faca - poesia no eu feminino

Sei que tu amas a faca
Que escama o peixe
De madrugada

E eu, sou mais a fada
A foda, o nada

Para sua pesca
Sou sereia enluarada

E pro seu mar
Sou só fachada

Mas mesmo assim
Me deito em sua cama


E sou senhora 
Naquelas horas
Das tuas mãos

Que me afagam


Daí a fada
Afaga o peixe

De prazer
Infindo


E tu se perde
Nas estradas
Do meu corpo



Jair Fraga V. Neto
(…)Nunca recebi notícia do mundo animal de que um pássaro inconformado com a vida resolvera parar de cantar e voar, nunca!
Jair Fraga V. Neto
Coitado do Caio


Coitado do Caio, caiu
E o vento empurrou a terra
Fez tremer sepulturas entregues
Fez morrer muitas vidas
180  km/ h
foi varrendo pessoas
E animais
 
Foi ventando e ventando
E o Caio cavando
Deixou sua lapide frouxa
De medo e vontade.

Jair Fraga V. Neto

Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra.
Adélia Prado (via ganglamne)
Não importa quantas caras você tenha

 



Já fui chuva , já fui terra vermelha
Já vivi, já passei, lavei, lavrei!
Já tive de todos, um nome.
Consolei e me neguei a consolar
E como a história era minha
Bati a cabeça na parede
E escrevi ao mesmo tempo
 
Já fui versos na água
Escorrendo em sua face
Enquanto a vida deu-me disfarce.
Mas hoje sou apenas tinta fresca
Que dormiu num belo dia
E acordou poesia
 
Por isso
já fui, já vou, eu sou,
e continuarei
sen-
do

Jair Frag V. Neto